quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Comunicação apresentada no SALESIUS - sobre o amor intelectual....

Entre a primavera de 1583 e o final de 1585, Giordano Bruno estava na Inglaterra. Foram anos decisivos para ele, tanto do ponto de vista filosófico quanto no plano pessoal. O que se costuma chamar de sua experiência inglesa foi um dos momentos mais fundamentais de todo o seu itinerário intelectual e humano. Os Furores Heróicos foram um dos diálogos italianos escritos e publicados nessa época e foi logo depois de sua publicação que Bruno se viu obrigado a deixar a Inglaterra e voltar para Paris.
Obra complexa tanto na forma quanto no contexto de sua narrativa é de extraordinária beleza, escrito dentro do melhor estilo de comentários em prosa sobre versos. Nem poesia filosófica nem filosofia pura, mas filosofia e poesia, mas Bruno investiga a condição própria do filósofo e mostra como a filosofia é fruto de um tipo específico de furor, o furor heróico. São 10 diálogos divididos em duas partes com cinco diálogos cada. O argumento é quase um livro de arte. Nele, Bruno procura explicar o que espera que seja lido em cada diálogo. O livro inteiro trata da busca do filósofo pela verdade. O filosofo, desde o início, seria chamado de Furioso, significante riquíssimo, largamente usado por pensadores e poetas renascentistas, e ao qual deveremos voltar. A primeira preocupação de Bruno, visível desde o Argumento, quer que não se confunda o objeto de desejo do Furioso com o objeto do amor vulgar contado pelos poetas, ou seja, a imagem feminina. A paixão mesma, as palavras então podem ser as mesmas para descrever o estado de alma do apaixonado, mas um abismo se abre em relação ao objeto dessa paixão criticando os poetas em particular e, em geral, todos os homens que se perdem na paixão amorosa, Bruno escreve uma das principais da misógina ocidental. Diz ele:
“Indigno e ridículo amar o que não amou Um homem que gasta o melhor de seu tempo para conceber, escrever e gravar esses perplexos tormentos traz discursos, destinados a sofrer a tirania de um imbecil, indigno e imundo lixo, esse erro extremo da natureza que, pela aparência de superficialide, por uma sombra, um fantasma, um sonho, um encanto de Circe posto a serviço da geração, a enganadora ilusão da beleza” (Furores Heróicos, Argumento, pp. 90-92).
Mas se as mulheres não podem ser um elevado objeto de desejo, ao menos porque só mulheres que pertencem a condição humana que contra a qual, justamente, luta o Furioso.
Quando se trata de considerar o amor, Giordano Bruno mostra que não existe uma distinção real entre um amor superior e um amor inferior, pois o amor é o elo que vincula tudo. Entretanto, ele também caracteriza dois tipos de amor: o amor humano e o amor divino, também chamado amor heróico. No que diz respeito ao amor humano, Bruno não se afasta muito das teorias misogênicas da medievalidade, que consideram o amor vulgar, em especial o amor sexual, ora uma doença, ora uma delícia no paraíso terreno. Bruno, no entanto, parece propenso a aceitar ainda melhor aquelas referencias ambíguas do amor apresentadas por Platão. Por isso, a idéias de Sócrates de que o amor humano é uma tirania também faz eco nos textos brunianos. Nesse sentido, embora se possa encontrar fortes traços da tradição petrarquista nos textos de Bruno, é preciso deixar claro que suas análises sobre o amor ultrapassam as concepções dos cancioneiros de amor e se concentram na reflexão filosófica em torno do tema. Por isso, mesmo quando faz referencia ao amor humano, Bruno tem em vista aquela forma especifica de vinculo que congrega todas as coisas.
O amor Divino é o vinculo dos vínculos, a causa do que existe no universo, do qual, evidentemente também participam os seres humanos.
“Todos os amores se são heróicos [...] têm por objetivo a beleza divina, tendem a beleza divina a qual primeiro se comunica às almas e nelas resplende, e das quais ou, para dizer melhor, pelas quais se comunicam depois aos corpos; por isso o afeto bem formado ama os corpos ou a beleza dos corpos, porque esta é sinal da beleza do espírito. Desse modo, o que faz com que nos enamoremos do corpo é uma certa qualidade do espírito que vemos nele e que chamamos de beleza, que consiste nas dimensões maiores e menores, não em determinadas cores e formas, mas em certa harmonia e consonância de partes e cores.
[1]
Assim, para Giordano Bruno, o amor constitui uma unidade e todas as suas formas têm origem no amor divino, que preenche todas as coisas e lhe dá beleza. O amor divino se funde na alma e no corpo humano. Primeiro o amor divino preenche a alma humana, depois toma conta das partes do corpo. É o amor que torna belos os corpos e as coisas belas. A beleza tem um caráter espiritual consistente na harmonia, na consonância e na proporcionalidade entre as partes. O amor divino é eterno enquanto o intelecto humano é marcado pela temporalidade. A mente humana pode perceber a difusão do amor divino em múltiplas partes como um processo que resulta na unidade do todo. No entanto, na ordem do ser, o amor humano e o amor divino coincidem.
Em sua obra, o filósofo Giordano Bruno, em pleno Renascimento, teve uma maneira de olhar o olhar, no encontro poético entre os olhos (falando da razão) e o coração (em nome das paixões). Para ele, “a vista é o mais espiritual de todos os sentidos”. Assim, ele dedica o livro Heróicos Furores. Nesta obra ele escreve o diálogo – o embate – entre os olhos e o coração. O diálogo começa com uma acusação e um lamento do coração. Ele se queixa do fogo que o consome e acusa os olhos de serem “causa desse cruel incêndio” que nem toda a água do oceano bastaria para apagar. É que a primeira chama veio dos olhos, porque a razão excita o desejo: “Perceber, ver, conhecer, eis, em verdade, o que o desejo acende. É, pois, graças aos olhos que o coração é incendiado”.
Por sua vez, os olhos acusam o coração de ser o princípio de todas as lágrimas; na verdade, o fogo e a dor do coração fazem brotar as lágrimas dos olhos: se os olhos incendeiam o coração, é por causa do coração que os olhos são incendiados em lágrimas. “Copiosas lágrimas que, se espalhadas, inundariam o universo”.Os olhos perguntam: se toda matéria, convertida em jogo móvel e ligeiro, eleva-se às alturas do céu, “por que você, que um tão grande jogo de amor atormenta, não é levado, rápido como o vento, de um só ela até o sol?”. O coração responde: “Louco é aquele que, fora das aparências, nada conhece e que, pela razão, recusa-se a acreditar: o fogo que está em mim não pode alçar vôo, nem pode ver esse desmesurado incêndio, porque acima dele estende-se o oceano de olhos e o infinito não pode ultrapassar o infinito”.
E assim, como romper o equilíbrio de duas forças iguais? “Onde existem duas forças – comenta Giordano – uma não sendo superior à outra, uma e outra cessam de ser operantes, uma vez que a resistência de uma iguala-se à insistência da outra”. A igualdade só é possível entre dois infinitos. Duas forças finitas em oposição sempre produzem a ruptura da harmonia e do equilíbrio, por serem desiguais.
E no fim do diálogo vem a resposta: acima dos olhos e do coração está o Desejo. “Estas duas potências da alma jamais são e podem ser satisfeitas por seu objeto uma vez que infinitamente elas o buscam”. O Desejo é o infinito que trabalha o interior das paixões e da razão. É o Desejo que leva o ver a se transformar em ação de ver, dando às paixões e ao intelecto movimento infinito.
A relação dos olhos e do coração, do pensado e do sentido, é posta num duplo movimento, ou seja “dois ofícios”. “Para os olhos: imprimir no coração e receber a impressão no coração, da mesma maneira que o coração tem dois ofícios: receber a impressão dos olhos e imprimir nos olhos. Os olhos apreendem as aparências e as propõem ao coração; elas se tornam então, para o coração, objeto de desejo, e esse desejo, ele o transmite aos olhos; estes concebem a luz, irradiam-na e, nela, inflamam o coração; este, abrasado, espalha sobre os olhos seu humor. Assim, primeiro a cognição emite a faculdade afetiva que, por sua vez e em seguida, emite a cognição”. Cada idéia dos Furores Heróicos faz ressentir o corpo e a busca incessante da felicidade e do prazer.
No entender de Giordano, atarefa do intelecto humano é de apreender a unidade, representada aqui pela beleza e pela sabedoria divina. Noutras palavras, o intelecto está em busca do conceito ideal e sua atividade vem descrita na linguagem da caça. Como jovem caçador estava em busca de uma presa, também o intelecto está a procura de seu objeto. O intelecto tem em vista a sabedoria beleza divina, consideradas por Giordano o fim último do processo cognitivo e da atividade filosófica. Por outro lado, com o desfecho trágico narrado no soneto, Giordano põe em cena os limites do próprio intelecto na consecução de sua meta. Por isso, a atividade intelectual depende de pré-condições que somente podem ser preenchidas pelo amor heróico.
Desse modo, tomando por base as concepções sobre o amor e acentuando o papel ativo do intelecto no desenvolvimento do processo cognoscitivo, as posições de Giordano Bruno mostram que o amor heróico é a condição de possibilidade para a atividade intelectual. Com isso, fica claro que sem considerar o papel do amor não é possível compreender o próprio sentido do filosofar.
[1] Giordano Bruno, De gli eroici furori, I.3, 2002, p. 561;

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